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Descolonizando o audiovisual pela soberania do visível

Por: Frederico Angelo – UFMG / Minas Gerais . – Brasil

O que o termo “resistência na tela” pode sugerir? Se você pensou na tela do seu celular ou smartphone com algum tipo de película, ou mesmo uma tela composta de material a prova de impactos, convido você a refletir sobre o termo “resistência na tela”. O site de compartilhamento de vídeos Bombozila apresenta um catálogo de vídeos latino-americanos e caribenhos cuja proposta ultrapassa a “resistência na tela” para nos conduzir a uma reflexão sobre o lugar da fala, a soberania das imagens em sua relação com a cultura. Abaixo temos uma breve descrição do site:

BOMBOZILA — Descolonizando o olhar e construindo a nossa memória audiovisual.

“Somos uma plataforma de acesso a filmes, documentários e demais produções audiovisuais — que contam a história sócio política do nosso continente nos últimos anos. Damos destaque para realizações de pequenos produtores, coletivos de cine comunitário e documentaristas que atendem à urgência política dos nossos territórios em luta e resistência. Construímos uma narrativa coletiva da conjuntura política da América Latina e Caribe, contada pelos seus próprios protagonistas. Lutamos pela soberania audiovisual, em que compreendemos — formação — realização — distribuição audiovisual, como capacidades populares necessárias para a emancipação social do povo. Quando colocamos o Circo Eletrônico na rua, é porque acreditamos que todo muro pode ser uma tela de cinema, que a câmera é uma arma para documentar e visibilizar as estórias populares e a comunicação social é um direito do povo. Nosso projeto nasce em 2016 fundado por Sabina Alvarez (comunicadora do Chile) e Victor Ribeiro (cineasta brasileiro), como parte das atividades da Rádio Mutirão, com sede no Rio de Janeiro.” (Grifo feito pelo autor deste ensaio)

Comecei perguntando sobre o termo “resistência na tela” e, na descrição do Bombozila, grifei um segundo termo que considero importante: “soberania audiovisual”. Afinal, o que estes termos têm a dizer sobre o Bombozila e a produção latino-americana?

Afinal, todas as telas são iguais? Uma prosa entre tecnologia e soberania

Ao acessar o site Bombozila temos em nossa tela um catálogo de produções audiovisuais disponíveis para a exibição. Há uma produção em destaque e as demais se encontram logo abaixo para a escolha do usuário. Com um design parecido com os demais sites de streaming, como o da Netflix, por exemplo, surge uma primeira pergunta: o que tem de diferente nesta tela ou neste site? Por que este Bombozila, cujo conteúdo possui produções audiovisuais latino-americanas, africanas e indígenas, apresenta-se como aquele que merece nossa atenção e audiência? Em que ele se difere da plataforma Netflix?

A resposta pode ser surpreendente, e até superficial, caro leitor. Para as perguntas feitas acima, eu poderia responder: as telas são tecnicamente iguais!

Antes que mude de página, depois desta afirmação, convido você a pensarmos juntos sobre as formas de consumir o audiovisual. Em tempos de múltiplas telas, o audiovisual se tornou um produto mutável. Podemos assistir a um vídeo em qualquer lugar, de forma atemporal e de diversas formas: na posição vertical ou horizontal, na tela do celular, na TV ou smart TV. São várias as opções de consumo.

A tecnologia possibilitou a democratização do consumo bem como da produção audiovisual, fazendo com que a mesma tela que reproduz também capte imagens de diversos formatos e resoluções. Por isso que a resposta pode parecer superficial. Porque a plataforma utilizada pelo site Bombozila, ou por outro site de compartilhamento de vídeos, localizado em qualquer continente, parte do mesmo principio tecnológico: a oferta de um catálogo de vídeos que são alocados em um servidor privado ou que seja utilizado a partir de “repositório de vídeos” como o Youtube ou Vimeo, que são compartilhados através de hiperlinks em seus respectivos sites.

Se a resposta é essa, simples e até superficial, como fica a soberania audiovisual — anunciada como uma política do Bombozila — se os vídeos estão alocados em servidores dos conglomerados da internet? A quem pertence o direito de dar a visibilidade do vídeo? E tendo os direitos sidos cedidos a estes grupos, a partir do momento que o vídeo se encontra em servidores de terceiros, qual seria a responsabilidade do autor e do servidor?

Assim como em outras dimensões de nossa vida social, como a econômica e a política, o conceito de soberania é permeado pela existência de regras, de cessão de direitos, de regulação em diversos setores, inclusive o audiovisual. Os vídeos só são dados a ver ao obedecerem as regras do que é tornado visível ditadas por aqueles que possuem o poder econômico ou politico da internet. Caso contrário, os vídeos tornam-se invisibilizados, assim como aqueles que os produzem e que clamam a visibilidade sobre suas lutas, tradições e sua posição de fala. A busca da soberania das imagens encontra-se em um campo de batalha entre a invisibilidade e a visibilidade, mediada pela tecnologia de grandes repositórios de vídeos e seus servidores. Submetidos a direitos e deveres que podem ser questionáveis justamente a partir do sentido de soberania que querem (des)construir.

Portanto, as operações tecnológicas utilizadas por estes sites são iguais; bem como a regulação existente sobre estes vídeos é a mesma para todos os tipos de conteúdo. Ainda assim, é possível falar em soberania e em visibilidade na rede?

Se, como já assinalamos, no aspecto do design, todos os sites de compartilhamento são iguais por que Bombozila reivindica uma soberania audiovisual? Existe algo para além da tela que os tornam diferentes?

Tecnicidade: onde a imagem se encontra com a cultura

Existe uma diversidade de vídeos na internet, existe também uma diversidade de conteúdos que compõe estes vídeos. Segundo dados do Youtube, (para saber mais, clique aqui) atualmente existem em sua plataforma mais de um bilhão de usuários, distribuídos em 91 países e 80 idiomas e um bilhão de horas assistidas por dia!

A apresentação destes dados me provocou alguns pensamentos. Um deles é que é preciso ir além da audiência conquistada por estes vídeos (alguns deles do próprio Bombozila alocados em seus servidores), se quisermos alcançar mais do que números e mais números. Ao atentar-me sobre como estes vídeos se apresentam na tela do usuário (quais imagens temos na tela, quais composições, a quem elas pertencem, o que têm a dizer) comecei a entender que existe aí um encontro. Que encontro é esse?

Entre a imagem e sua visualização há um encontro. Há uma afetação entre o nosso modo de ver e a nossa seleção de vídeos e imagens; o que buscam ou selecionam os nossos olhos. Dentre a seleção dos mais de 1 bilhão de opções de vídeos estabelece-se uma verdadeira negociação entre a retina e a tela. A chave deste encontro nos abre o caminho para as respostas que buscamos. Entre a retina e a tela está a cultura. Quando a técnica e a cultura se encontram, temos a tecnicidade.

No livro A Guerra das imagens (1994) o autor Serge Gruzinski detalha a importância das imagens para nossa constituição cultural e como elas tornavam um povo visível. Portanto componentes técnicos ou condições de captura da imagem perdem ordem de importância quando a cultura emerge e se torna visível através do olhar.

Ao selecionar um vídeo indígena ou um vídeo sobre os movimentos estudantis, o importante, como salienta Gruzinski, é como a imagem pode tornar visível o percurso cultural que a sustenta, os significados e traços nela contidos que constituem certa forma de mostrar o mundo.

Pensando neste encontro entre a imagem e sua visualização, W.J. T Mitchell faz a seguinte pergunta: o que querem as imagens? A resposta desta pergunta requer que olhemos a tela como algo multiestável. Com possibilidades de querer muitas coisas. A depender daquele encontro que citamos…

Assim, seja um vídeo sobre autonomia e territórios ou uma tribo indígena, se é um vídeo amador ou profissional, não faz diferença. O que está em jogo são as negociações entre aquele que vê e aquilo que é mostrado. É parte de um composto onde a imagem reivindica seu papel de fala e a cultura é constituinte na formação da mesma.

Está imagem que busca o seu lugar de fala, o site Bombozila, propõe a dar a visibilidade.

Mas, essa conversa não termina aqui. Existem outras questões a serem debatidas neste espaço. A cada clique, a cada visualização temos novas negociações com a imagem. Não que a mesma mude a cada clique, mas nosso modo de ver a imagem muda a cada nova experiência. Nosso modo de ver o mundo é agenciado pelos modos através dos quais esse mundo é mostrado. Que modos de mostrar são esses feitos por Bombozila?

Convido a você, caro leitor, a continuar essa conversa na próxima edição da Bem-Te-Vi. Enquanto isso, deixe seu comentário e compartilhe nossas publicações. Afinal, queremos saber: “O que querem as imagens?”

…continua

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