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Descolonizando o audiovisual pela soberania do visível — Parte 2

Por: Frederico Angelo – UFMG / Minas Gerais – Brasil

Caro leitor, vamos retomar nossa conversa sobre o site de compartilhamento de vídeos, o Bombozila, e sobre questões que nos ajudam a refletir sobre o audiovisual e as imagens? Vamos falar também sobre como os usuários vem consumindo esses vídeos e essas imagens? Caso essa seja sua primeira leitura aqui no Bem-Te-Vi, sugiro que comece pela leitura do texto da última edição.

Agora, sim, voltemos ao Bombozila.

A proposta de apresentar um catálogo de vídeos com tamanha diversidade de temas e estilos me conduz a uma primeira questão: será que o objetivo proposto pelo site vem sendo alcançado? Será que as minorias ganharam com as imagens uma forma de compartilhar sua cultura, seja no campo da religião, das tradições, da luta, dos relatos de fatos históricos e etc? Bombozila se apresenta como uma possibilidade dentro do campo do visível. Suas imagens também possuem algo a dizer, como argumenta Mitchell, partindo das questões do cotidiano até as tradições de uma determinada população. Os registros das imagens carregam consigo a esperança de uma eternidade visível, uma memória sempre viva.

Sob esse entendimento, os termos descritos no site ganham sentido: a resistência da tela significa como uma determinada população ou grupo social busca compartilhar seu olhar sobre a história, sua luta por construir memória e preservar seus direitos. Eis a soberania: aquela de quem encontrou no audiovisual uma tela para colocar a sua imagem em posição de fala.

Encontramos no Bombozila um caso no qual as imagens se oferecem para além do entretenimento. Elas propõem contar a história sócio-política do continente latino-americano e funcionam como ferramentas políticas e sociais de um povo. Há uma narrativa, uma história que precisa ser contada, denunciada ou simplesmente transmitida para as futuras gerações para que compartilhem sentidos, visões de mundo e relatos que fizeram de nós quem somos.

Bombozila e o lugar da fala

Ao visitar o site, duas abas chamaram minha atenção: categorias e TV comunitária. Em verdade, não me pareceu fazer sentido que viessem separadas.

A TV comunitária poderia ser uma subcategoria dentro das demais a serem descritas. Em outras palavras, pergunto: por que separar TV comunitária das categorias de documentário, identidade de gênero, cine afro, movimento estudantil, ficção, arquivo, infanto-juvenil, indígena, meio ambiente, autonomia e território, cidades globais?

Mesmo que a produção dos vídeos classificados como comunitários seja realizada pelo Movimento de Livre Mídia ou outro órgão social, não estariam eles produzindo conteúdos que poderiam vir classificados nas categorias existentes? Um vídeo comunitário não pode ser também um documentário, ou um vídeo indígena ou sobre o meio ambiente? Afinal, se os vídeos apresentados na TV comunitária são parecidos ou possuem uma proposta semelhante ao já apresentado em outras subcategorias, por que deixá-los num lugar a parte? Caso algum interessado em vídeos indígenas, por exemplo, vá direto à categoria indígena e não busque pelo material na TV comunitária, ele poderá potencialmente deixar de fora de sua busca muitas produções que também abordam esse mesmo tema e que foram realizadas por iniciativas comunitárias.

As categorias em sua maioria representam a questão sócio-política reforçando, assim, o papel do audiovisual para estas minorias: o lugar da fala, da denúncia, do território, da celebração, da cultura etc. Também podemos encontrar vídeos de entretenimento infantil e webssérie. São vídeos que adotam a linguagem documental preferencialmente talvez pelo consenso estabelecido em torno deste estilo que adota o gesto político no simples ligar da câmera. A imagem encontra voz como existe também o encontro da voz com a imagem; os relatos carregam consigo rastros de um passado de experiências.

Com Bombozila, a constituição do povo latino-americano se encontra novamente com aquela matriz que tem sustentado nosso fazer cultural e histórico: a oralidade. Somos um povo de cultura oral. É através da oralidade que encontramos os relatos dos primeiros nativos destas terras. Agora a oralidade se junta à imagem para formarem um composto no qual a primeira passa a ter o que dizer e ganha voz quando se encontra com a segunda.

Cada categoria apresenta um traço que chama a atenção. Em Cine Afro os vídeos sobre a religiosidade e tradição africanas em nosso continente tem como propósito apresentar a origem de um povo que contribuiu para a constituição da América Latina; o que chama atenção em Movimentos estudantis de vários países, são as ações editadas com cortes secos ou inexistentes na tentativa de captar o ambiente vivido durante as manifestações filmadas; Autonomia e territórios demostram o lugar de disputa entre os nativos e o poder econômico que silencia aqueles que lutam por suas terras.

Ao observar a tela que apresenta o catálogo de vídeos, a pergunta de Mitchell (o que querem as imagens?) começa a ser respondida. As imagens formam subcategorias a partir de certa estratégia de comunicabilidade por parte dos que as produzem: parecem querer mostrar com a apresentação proposta pelo site uma (re)construção das matrizes culturais que as sustentam. E seria isso o que está sendo visto? Aqui reside aquele encontro do qual falamos na semana passada, lembram-se?

Um encontro entre a imagem e seu espectador (aquele que a visualiza). O “lugar” desse encontro é a cultura. A imagem tem a dizer (e muitas vezes dizem algo que extrapola as bordas da tela), mas isso só se torna possível quando esse diálogo proposto ocorre no terreno da cultura e seus rastros.

O site através dos vídeos e de sua descrição apresenta debates sobre o audiovisual assim como o seu papel na sociedade: o vídeo como um ato politico, o vídeo como questão social, o vídeo como relato histórico e o vídeo como patrimônio. As imagens querem se tornar, para o latino-americano, a ferramenta de um relato da experiência, seja na constituição do seu povo ou fatos por ele vividos. As imagens querem, também, alimentar expectativas de um futuro, signos de sonhos e possibilidade de um amanhã melhor.

E o que dizer sobre a produção audiovisual dos vídeos e do próprio site? O que está em jogo em termos de soberania e resistência?

Uma observação inicial de alguns dos vídeos alocados no site e uma primeira constatação: a lógica do audiovisual que permeia as produções possui características televisivas. Vemos que os enquadramentos, a estética e alguns aspectos das narrativas possuem elementos televisivos. Mas isso está em todo lugar. Somos diariamente afetados por propagandas que convidam a ter a experiência televisiva levada a todos os lugares nos mais diversos dispositivos, como a Netflix, que também possui em seu catálogo produções que adotam a lógica televisiva. Mas, se Bombozila centra uma de suas propostas na descolonização do olhar, como compatibilizá-la com isso que acabamos de constatar?

A resposta pode ser dada pelo que se considera como descolonização do olhar. Ela parece ir contra a um tipo de globalização do olhar tal como parecem promover os grandes serviços de streaming. O caminho é o de tentar entender a proposta do Bombozila de descolonizar o olhar enquanto uma plataforma global. Nesse contexto, o sentido dado ao termo “descolonizando o olhar”, vai ao encontro da “soberania audiovisual” da região, tal como proposta pelo site.

Se antes a fuga para a dominação da mídia eram os ambientes de rede, como a internet, hoje a busca pelo entretenimento sem sair de casa podem levar ao consumo de grandes produções dos colonizadores. Bombozila entra na disputa por esta audiência que, ao descobrir o site, descobre junto muitas possibilidades de ver. E este serviço de streaming na América Latina está iniciando e apresenta um crescente consumo a cada ano. Podemos conclui-lo como um acerto? Sim. Mas seria simplista imaginar que apenas o fator “novidade” seria responsável por esta escolha. Quando falo em audiovisual, incluo formas de consumir, de produzir e de mostrar vídeos. E todas elas possuem características próprias. Quais seriam as nossas?

O que sugiro, de forma não conclusiva, é que a televisão faz parte do imaginário latino-americano e se configura como um de seus primeiros contatos com o audiovisual. Ao propor ser uma janela de visibilidade aos produtores independentes, aos movimentos e minorias, Bombozila não apresenta exatamente algo em termos de experimentação dos modo de fazer. O imaginário e regime de visibilidade televisivos atravessam a criatividade. As tradições, os costumes, os relatos e as denúncias são enquadrados de modos que podemos identificar como televisivos. Seja no site, nos dispositivos móveis, no televisor da sala ou na tela do ônibus, a soberania audiovisual se encontra, de algum modo, regulada por esse regime televisivo. Por isso, as imagens das minorias nem sempre cabem na tela e nem sempre o olhar é descolonizado. Mas isso não quer dizer que o site Bombozila não seja de fato um dos passos para que estas imagens não se estabeleçam como um posicionamento político.

Afinal, o que querem estas imagens? A resposta vai muito além de um desejo de estar em um enquadramento. Seu desejo é mostrar o seu lugar de fala ou, dito de outra maneira, o seu lugar (político) de imagem.

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